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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Relatório inédito analisa como o público compreende práticas de dataficação em redes digitais

A dataficação opera no novo contexto de codificação das relações humanas nas redes digitais e se refere ao processo de quantificar todos os aspectos das interações socais nas redes e transformá-los em código através de processo automatizados e nem sempre transparentes para os usuários com fins mercadológicos e políticos. O mais detalhado relatório sobre pesquisas e seus resultados na área da dataficação, intitulado "Public understanding and perceptions of data practices: a review of existing research", acaba de ser publicado e está disponível para consulta neste link e integra os conteúdos do website Living with Data. A publicação é dividida em três seções: uma síntese dos principais resultados de pesquisas científica e outros artigos diversos na temática indicando como o público compreende a dataficação (incluindo relatórios de organizações diversas, etc.); um relatório completo e detalhado contendo os resultados das análises de todo o material publicado na temática entre 2015 e 2020, e um compêndio com a lista de todas a publicações identificadas na pesquisa. 

Os resultados do estudo foram agrupados em 10 temas sobre as principais questões que envolvem a dataficação, dentre eles os níveis de conhecimento e de preocupação das pessoas sobre a dataficação, os fatores emocionais e de confiabilidade envolvidos, as percepções as pessoas sobre mudanças necessárias nas práticas de dataficação. De modo geral, os pesquisadores da University of Sheffield apresentaram a seguinte conclusão geral, em tradução livre:
"I - A questão dos dados é uma questão humana. Isto significa que a governança relacionada a dados
e a tomada de decisões deve ser centrada no ser humano. Ela precisa começar com as experiências e percepções das pessoas afetados pelas práticas de dados.
II - O contexto é importante. Quem reúne dados, o que e quais dados são coletados, para que
propósito e com que efeitos, influenciam atitudes das pessoas.
III - As desigualdades são importantes. As desigualdades sociais influenciam os níveis de conhecimento e compreensão, preocupações, grau de confiança e sentimentos sobre práticas de dados."

terça-feira, 2 de outubro de 2018

A "plataformização" da educação

No artigo intitulado Social media platforms and education, os pesquisadores holandeses Jose van Dijck e Thomas Poell descrevem e analisam o fenômeno chamado "plataformização da educação", ou seja, os novos processos -- geralmente ligados a interesses da iniciativa privada -- que utilizam plataformas digitais semelhantes às das mídias sociais para atividades de ensino e de aprendizagem. E que, ao faze-lo, geram milhares de dados sobre o comportamento de alunos e professores que, por sua vez, são analisados e utilizados para alimentar novas ações que, em tese, buscam aprimorar a aprendizagem massificada.
O fenômeno congrega elementos da arquitetura do software que sustenta o funcionamento dessas plataformas, os modelos de negócios dos cursos oferecidos e a enorme quantidade de dados gerados pelas ações dos usuários. Os autores indicam dois elementos que são cada vez mais relevantes em ambientes de educação on-line: a dataficação (processos intensivos de coleta e análise de dados, datafication no original) e a mercantilização (commodification no original), analisados através dos exemplos das plataformas AltSchool (usada na educação básica) e Coursera (usada na educação superior) . O texto foi originalmente publicado no Handbook of Social Media, lançado em 2018.

Dentre as diversas conclusões dos autores, destacam-se: "Primeiro, as plataformas educacionais tendem a subjugar seus princípios pedagógicos aos mecanismos de mídia social; segundo, a eficácia dos softwares educacionais e dos sistemas de rastreamento de dados nas escolas e universidades até agora foram mal testados, mas ainda assim são apresentados como soluções muito necessárias para instituições educacionais desatualizadas; e terceiro, a incorporação da educação on-line em um mundo global de plataformas comerciais de alta tecnologia pode transformar [no sentido de descaracterizar] a noção de educação como um bem público".

E finalizam: "Ao considerar as mídias sociais como plataformas em vez de apenas ferramentas, queríamos chamar a atenção para o poder de sua dinâmica subjacente. As plataformas on-line não afetam apenas os processos básicos de aprendizado e ensino, mas também afetam as formas pelas quais a educação é organizada em uma sociedade cada vez mais orientada a dados e baseada em plataformas".